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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Ser! Ou parecer?

O Ministério da Cultura encontra-se ausente. Ora, em face da vasta intelectualidade portuguesa existente, lá se insurge a azia de alguns (que se dizem) cultos, cultivados pelas suas bibliotecas pessoais de prateleira vazia. Já o génio de Pessoa decompunha o fenómeno do provincianismo “civilizado” do Portugal profundo, prescrevendo como terapêutica a simples assunção da sua existência. Volvida a centúria, esse “mais do que ser, parecer” prevalece, mas ao que parece, não se conhece. Assim, fingimos (fotogenicamente) que precisamos de um Ministério, com a respectiva comitiva (ministro, assessores, secretários, motoristas e saberá o Orçamento mais o quê), exigindo-o sem querer pagar essa procissão! Reivindica-se o serviço, desdenhando-se a conta! Isto num país que pontua pelos seus índices de leitura transbordantes, que impressionam (pelo stock de livros por vender), para mais não falar de teatros que até fazem eco, de tão cheios que estão! Venha então a procissão, a doutrina e a reza dos papa-figos, esperando-se que as subvenções para financiar a oferta sem procura, resultem, logo ao nascer do sol, em um milagre fértil de cultura… podendo-se então, aproveitar o dia, todos na praia, de toalha estendida.       

Carlos M. G. Martins 





Publicado (dia 19/08/2011) no Jornal i

domingo, 1 de maio de 2011

Sociedade e Cidadania... Frontalidade na franqueza ou companheirismo delirante pela fraqueza?

"Eu não me envergonho de corrigir os meus erros e mudar de opinião, porque não me envergonho de raciocinar e aprender " por Alexandre Herculano(1810-1870)



A perspectiva do “eu”

Ignorar a crítica – enfrentá-la enquanto vidro distorcido da realidade, como estilhaços acutilantes que acometem um orgulho auto-nutrido, é um passo dado em sentido do erro (individual) histórico. Tal erro, marca pela leviandade pueril de quem olvida (ou faz-se esquecer) de que o erro é parte indispensável da aprendizagem e da estrutura-conformação da mundividência individual, como fere e corrompe o cerne do padrão comportamental, impedindo-o que (num processo que se deseja ininterrupto) desenvolva positivamente.

O prisma do “tu”

O erro, dadas as intermináveis perspectivas de interpretação de um mesmo facto, é concludentemente subjectivo. De tal forma que uma acção levada a cabo por indivíduo x, considerada errática por y, por força de alterações das circunstâncias em que este se insere, seja apontada pelo mesmo sujeito y como certeira e até mesmo aplausível.

Com efeito, para acontecimento determinado existem, ao menos duas interpretações possíveis e, as mais das vezes, a variedade de versões é incomensurável. A crítica fácil para efeitos de “formar conversa” mina as relações, a confiança e incentiva a postura de não aceitação permanente dos laivos erróneos que naturalmente envolvem o comportamento de cada um. Ponto é: julgar sem o devido distanciamento, procurando abstratizar e incorporar a acção num sistema de desenvolvimentos e factores em um ambiente condicionador, consiste na crítica fácil, estéril, inócua, que mais não faz do que proporcionar uma linha de conversação fugaz, todavia potencialmente danosa.

Voltemos ao “eu” – foquemo-nos em “nós”     

De certo que a frontalidade tem um efeito regenerador , potenciando o crescimento, desde que a crítica se mova pelo móbil de construir. Não obstante, será a medida – capacidade de encaixe no acolhimento, aceitação, e reflexão da mesma , livre de represálias ou destrinça de razões para justificar o indefensável, que determina se aquela louvável e preferível postura de frontalidade será repetida, ou por abstenções infrutíferas, ou elogio de companheirismo delirante, substituída.

Para mais, o erro tem algo de muito objectivo. Encontra-se presente em todos nós. Por conseguinte, aquando de um impulso de crítica a qualquer acto, importa indagar qual o circunstancialismo que o envolve, acercando às razões que podem ter arreigado a escolha do agente seu autor. Quiçá, aquilo que à primeira se afigurava reprovável se torne, perante factores idênticos, um procedimento perfeitamente compreensível. A tolerância, neste quadro, reconduz-se a isto mesmo.

Da frontalidade-franqueza, erradicadas as sofismas, beneficiamos todos. Viver em constante negação de evidências impede o processo de melhoramento pessoal (e inevitavelmente o enriquecer colectivo) paulatino. Tornar-se-á um “porto sem-abrigo”, um terreno fértil na multiplicação de vícios, perdendo oportunidades de recuperar e angariar virtudes.

Assim, sejamos frontalmente construtivos. Aceitemos a crítica. Seremos melhores.  

Carlos M. G. Martins