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domingo, 1 de maio de 2011

Sociedade e Cidadania... Frontalidade na franqueza ou companheirismo delirante pela fraqueza?

"Eu não me envergonho de corrigir os meus erros e mudar de opinião, porque não me envergonho de raciocinar e aprender " por Alexandre Herculano(1810-1870)



A perspectiva do “eu”

Ignorar a crítica – enfrentá-la enquanto vidro distorcido da realidade, como estilhaços acutilantes que acometem um orgulho auto-nutrido, é um passo dado em sentido do erro (individual) histórico. Tal erro, marca pela leviandade pueril de quem olvida (ou faz-se esquecer) de que o erro é parte indispensável da aprendizagem e da estrutura-conformação da mundividência individual, como fere e corrompe o cerne do padrão comportamental, impedindo-o que (num processo que se deseja ininterrupto) desenvolva positivamente.

O prisma do “tu”

O erro, dadas as intermináveis perspectivas de interpretação de um mesmo facto, é concludentemente subjectivo. De tal forma que uma acção levada a cabo por indivíduo x, considerada errática por y, por força de alterações das circunstâncias em que este se insere, seja apontada pelo mesmo sujeito y como certeira e até mesmo aplausível.

Com efeito, para acontecimento determinado existem, ao menos duas interpretações possíveis e, as mais das vezes, a variedade de versões é incomensurável. A crítica fácil para efeitos de “formar conversa” mina as relações, a confiança e incentiva a postura de não aceitação permanente dos laivos erróneos que naturalmente envolvem o comportamento de cada um. Ponto é: julgar sem o devido distanciamento, procurando abstratizar e incorporar a acção num sistema de desenvolvimentos e factores em um ambiente condicionador, consiste na crítica fácil, estéril, inócua, que mais não faz do que proporcionar uma linha de conversação fugaz, todavia potencialmente danosa.

Voltemos ao “eu” – foquemo-nos em “nós”     

De certo que a frontalidade tem um efeito regenerador , potenciando o crescimento, desde que a crítica se mova pelo móbil de construir. Não obstante, será a medida – capacidade de encaixe no acolhimento, aceitação, e reflexão da mesma , livre de represálias ou destrinça de razões para justificar o indefensável, que determina se aquela louvável e preferível postura de frontalidade será repetida, ou por abstenções infrutíferas, ou elogio de companheirismo delirante, substituída.

Para mais, o erro tem algo de muito objectivo. Encontra-se presente em todos nós. Por conseguinte, aquando de um impulso de crítica a qualquer acto, importa indagar qual o circunstancialismo que o envolve, acercando às razões que podem ter arreigado a escolha do agente seu autor. Quiçá, aquilo que à primeira se afigurava reprovável se torne, perante factores idênticos, um procedimento perfeitamente compreensível. A tolerância, neste quadro, reconduz-se a isto mesmo.

Da frontalidade-franqueza, erradicadas as sofismas, beneficiamos todos. Viver em constante negação de evidências impede o processo de melhoramento pessoal (e inevitavelmente o enriquecer colectivo) paulatino. Tornar-se-á um “porto sem-abrigo”, um terreno fértil na multiplicação de vícios, perdendo oportunidades de recuperar e angariar virtudes.

Assim, sejamos frontalmente construtivos. Aceitemos a crítica. Seremos melhores.  

Carlos M. G. Martins

domingo, 17 de abril de 2011

Sociedade e Cidadania... O Mérito, parente pobre da nossa democracia, que na penúria se desvanece e pela ébria fobia das “elites” políticas perece.

O distanciamento dos capazes, com provas dadas, convictos e fundados em valores de seriedade, competência, esforço, transparência e mérito, deve-se à circunstância que reduz a política nacional a um joguete de politiquice barata manuseado por indivíduos mestres (leia-se, doutorados!) na ilusão, intriga e retórica destituída de conteúdo, inviabilizadora de caminhos exequíveis a percorrer.


Por favor acompanhe-me neste raciocínio:

A maior parte de nós prefere a mentiraa proposta descabida que todavia apraz ao ouvido, i.e., ao bolso do eleitor, do que a verdade que não convém. Com efeito, aqueloutros agentes que falam sem floreados tendenciosos, nem tão-pouco almejam um “cargo público de salvação pessoal”, salientando vicíos públicos e malefícios societários para que possam ser expurgados, são entusiástico-cirurgicamente enxovalhados, adjectivados e descredibilizados até ao dia em que a verdade inconveniente se torna demais evidente para ser ocultada com o véu da incompetência dos intocáveis políticos profissionais (prova empírica é o Dr. Medina Carreira).

Mas pense comigo:         

Sendo um particular com uma vida profissional estável e bem sucedida, por via da sua competência profissional, instigada pelo conseguimento académico meritório, irá colocar em risco tudo isto para se experimentar na vida partidária, para mudar o que considera inaceitável? Deixará o seu flanco aberto para que outros, frustrados profissional e academicamente e nos blocos partidários instalados, o ataquem apoquentados com a sua vinda, que coloca em causa a sua hegemonia?

As mais das vezes, presumo, a resposta será não.  O dia a dia o confirma.

Esta é a praxis que mina todo o Poder Executivo e Legislativo, do Estado Central às juntas de freguesia.



Note-se bem, os partidos da, até hoje, santificada “abrilada” são um ninho de ineptos (salvo pontuais honrosas excepções), pessoas que esquadrinham a auto-promoção e afirmação pela projecção que os cargos políticos, que os “poleiros” públicos proporcionam.

 O mérito não entra nas sedes partidárias, apenas a clubite cega, o favor, a cunha, o convénio por uma ajuda em troca de outro empurrão. “Gladiam-se coadjuvando-se” em busca do assalto ao poder (aos cofres do Estado, ao rendimento do contribuinte).     

As estruturas partidárias não devem ser vislumbradas como “catapultas sociais”, direccionadas por aqueles que disputam o prémio de maior bajulador ou demagogo, mas isto sim: Avenidas ao serviço público e nacional, por parte dos indivíduos que emanem potencial capacidade para a utilidade, desenvolvimento sustentado da sociedade.

Será uma falácia tremenda legitimar democraticamente, eleger em que plano for, um qualquer indivíduo que não tenha dado provas profissionais ou académicas de competência! Ademais, preferência seja dada aos laivos de brilhantismo. Ao menos deixa indicações de que geriu a sua vida particular de forma competente. De contrário, nem isso!  
A palavra de ordem tem que ser Mérito! Prova no terreno da qualidade e não atrás de um microfone prometendo, depois não cumprindo, e posteriormente desresponsabilizando.





Breve nota:

Alguns propõem a adaptação, rumo à mudança, mas apenas quando se chegar ao topo… Mas que dignidade nesse procedimento resta para depois apregoar algo que não foi praticado, com o qual, hoje, se afirma não concordar e veemente repudiar?  




Carlos M. G. Martins

sábado, 18 de dezembro de 2010

Sociedade e Cidadania… A Responsabilidade: filha de todos, a órfã que ninguém quer.



Sociedade e Cidadania… Afinando o tom que tem eclodido em artigos anteriores, este texto terá uma entoação mais pessoal e incisiva que as precedentes… O que, ainda assim, diga-se com franqueza, é muito mais uma questão de estilo, do que de conteúdo, mantendo-se o propósito inalterado.
Enceta, desta feita, a rubrica Sociedade (note-se, portuguesa), que será com assiduidade tomada e retomada, forjada na inquietação de quem penosamente a vê trucidada de membros fulcrais, como o são a responsabilidade, o mérito e a franqueza. Este tríplice, que compõe o corpo societário tem, aqui, como seu primeiro pilar sustentador… A Responsabilidade, filha de todos, a órfã que ninguém quer. Ladeando-a… O Mérito, parente pobre da nossa democracia, que na penúria se desvanece e pela ébria fobia das elites perece. “Last, but not least”A Franqueza, tão precisa para a colectividade (dado que constituída por uma miríade de indivíduos) como a água, todavia (e sem rodeios!) preterida pela bajulação, fecunda em penúria intelectual, embriagada em arrogância.  

A Responsabilidade: filha de todos, a órfã que ninguém quer.

Por quantas vezes terá cada um de nós, numa e noutra situação, procurando vividamente uma fonte de escape onde despejar a responsabilidade mediante erro por nós cometido?
Acontecerá, as vezes bastantes, que enquanto interna e inconscientemente (involuntariamente) admitimos que errámos, em simultâneo, interna, externa e conscientemente (voluntariamente) afastamos a responsabilidade, fruto do erro que brota de uma nossa acção.
Tendencialmente, será assim para alguns. Muitos ou poucos? Não me cabe aferir (sendo que na melhor das hipóteses, quedaria pelo execrável “atirar para o ar”). Não obstante, poucas dúvidas subsistem quanto à constância desta actuação, que fora qualquer número possivelmente aferido, tenderá para proporções que se crêem excedentárias.

Bom, indago agora… mas afinal, quais as consequências deste comportamento?

Importa destacar em primeira mão, as que apuro serem as mazelas do cerne individual. A assunção das responsabilidades que nos são imputáveis é algo que deve ser incutido, promovido e aplaudido a todo o sujeito, desde a mais tenra idade, satisfazendo uma saudável estruturação pedagógica, colocando mais um tijolo no que será o albergue de um futuro e recto cidadão.
Ora, a responsabilidade global por um erro que eu cometa, poderá ser para outros partilhada e relegada tendo em conta os múltiplos factores que potencialmente me induziram a perfazê-lo, tornando a minha acção de certo modo, parcialmente justificada. Na mesma linha direi, a escolha que eu faço, mostrando-se mais tarde errónea a meus olhos, será passível de ser apontada para culpa de outrem, porventura que omitiu, mentiu, enfim, aliciou a agir desse modo. Porém, tudo isto se minora cabalmente, sabendo inclusive, que muito felizmente, somos todos “donos da nossa vontade”, libertos de peias que entorpecerem o nosso motor de interesses, o que nos torna, em última instância, os alvos singulares de responsabilidade por equívocos próprios!
A comensurável percentagem de culpa nada importa, pois o que releva em último termo, para efeitos estruturais da personalidade, será o quanto de positivo podemos “espremer” daquela actuação errática. Quantos frutos há a colher após fertilizar o terreno antes inóspito? Dependerá certamente da forma como encaramos o erro. Nessa mesma senda, ao “limparmos as mãos” da responsabilidade que nos pertence podaremos pela raiz o que pode ser uma boa colheita e, sem margem para dúvidas, incorreremos num apadrinhamento de erros potencialmente corrosivos e limitativos para aquela que é a proeminente formação dos agentes (esperemos, positivamente) activos no seio da comunidade. Mais relevante ainda: os erros, ao desencadear consequências de vária índole, são imputáveis a quem os cometeu, emergindo em linha de conta a responsabilidade, que irá, por seu turno, conformar as fronteiras da acção do indivíduo culposo, coagindo-o a rectificar o proceder naquele específico aspecto em circunstâncias semelhantes futuras. De que serve então fugir, ignorar e despejar em outrem a responsabilidade? Apenas vedaremos os próprios olhos, tolhidos de verem a verdade, amarrando as nossas mãos, impossibilitadas de alcançar os frutos ao erro atinentes. Um verdadeiro Homem não olha a meios de se despir de responsabilidades, ele assume-as, adopta-as com coragem e de peito erguido. Só deste modo ele se tornará melhor, talhado para a vida que cada vez mais exige, paulatinamente e na medida em que avança, responsabilidades acrescidas.  
Afinal sem a (crucial auto-)atribuição de responsabilidades como poderemos nós distinguir os sujeitos merecedores de reconhecido mérito daqueles que se perfilam ociosamente vãos? Os bondosos dos perniciosos? Os produtivos dos infrutíferos?



Nesta nota avanço para a segunda plataforma de destaque de consequências desta renegação geral de responsabilidade… a nível da colectividade - da sociedade portuguesa em geral e dos líderes políticos em particular.
Pois bem, uma consequência óbvia e irrenunciável à sobredita tendência será a de que, a nível da cúpula (das podres elites), responsabilidade seja algo inaudito, bem assim, inimputável! Como a barra de exigência a ser suportada pela classe política, em democracia, será tanto mais leve, quanto menor for o comportamento auto-desresponsabilizador e laxista do povo que a elege, corresponder-lhe-á na exacta medida a espada de responsabilização. Espelha, portanto, aquela, este nosso comportamento colectivo. É aqui que encontramos o sufocante nó deste defeito: Ao não serem exigidas e auto-impostas responsabilidades no mais mundano dos comportamentos de cada cidadão, naturaliza-se o procedimento, banalmente o transformando num padrão aceite e facilmente transportado para um plano político, extraindo daqueles que nos representam, que tudo dizem fazer e que pouco constroem o “pesado” fardo de prestar contas, a não ser a benevolente (ou será inexistente?) “responsabilização nas urnas”. Aqui nos situamos. Quedamos na confusão… promovendo cobardes e ineptos a heróis e figuras de destaque.

Carlos M. G. Martins
 17/12/2010